Pessoas pretas tem crise de idade?

Esse tempo de quarentena tem me trazido muitas reflexões sobre a vida, sobre o que quero e o que não quero. Sobre meus planos e todas as certezas e incertezas que tenho dentro de uma mente de uma jovem de 30 anos. É, 30 anos, é um pouco assustador pra me dar conta que tenho essa idade, eu não me vejo madura o suficiente. É uma idade seria né? 

Fiquei me questionando sobre os impactos psicológicos causados em pessoas pretas por conta desse peso social, construído em cima das idades. Aos 20 pessoas deveriam ter e ser isso, aos 30 aquilo, aos 40 aquilo outro. Mas, pessoas pretas tem direito de ter esses questionamentos? O nosso povo teve direito a ter uma base de conquista para ter crise?  É isso mesmo, eu vou problematizar a crise dos 20, 30, 40, 50, me solta!!!

Mês passado, escrevendo um texto para este blog, do Clube da Preta, fiquei me questionando se o texto fazia mesmo sentido, se estava bom o suficiente, antes de postar, enviei para uma amiga Cientista Social e Mestranda em Sociologia Política, a Carine Passos, que de longe é uma das pessoas mais inteligentes que conheço. A Carine me retornou dizendo que o texto estava maravilhoso e fez uma reflexão. Muitas vezes, nós, pessoas pretas, temos um sentimento de perfeccionismo tal como : “eu posso fazer melhor que isso”, mesmo tendo um trabalho excelente, porque o racismo nos coloca nesse lugar de uma constante autoexigência.

Quando imagino essa idealização social de como um jovem em determinada idade deveria estar, fico pensando o quanto os abismos sociais nos separam até na hora de viver uma crise. Na minha infância, a minha preocupação era se eu iria ter onde morar, sem precisar pagar aluguel quando eu fosse idosa, porque queria viver uma terceira idade tranquila. Eu deveria estar preocupada em brincar, mas o racismo, não nos deixa viver as fases no tempo certo. Quando lembro disso, me dou conta que esse estado de crise de idade que tanto falam, conviveu comigo a minha vida inteira. 

Ao longo dos anos, as crises foram se adaptando. Hoje, empreendedora, com ensino superior completo e com uma meta (não digo sonho pq nada foi lúdico) de infância realizada, ter minha casa própria. Meus questionamentos não são mais sobre ter, mas se algum dia eu tive o direito de construir meus próprios sonhos e não metas. 

Em dezembro do ano passado eu fiz uma operação para retirar um nódulo no seio, logo após, quando tive que aguardar por um mês o resultado dos exames de análise do nódulo, as pessoas me enviaram mensagem dizendo: você é forte, olha o tanto que você construiu até aqui, você vai sair dessa, tenha fé. Quando tudo que eu queria era só ter o direito de desabar, de viver a dor, sem que me colocassem em um lugar intocável, de fortaleza, eu queria poder sentir o medo que não senti toda a minha vida, eu queria minha humanidade roubada. Acho que essa foi até hoje a maior crise que vivi na vida.

Quando estava ali, com medo da morte, comecei a me questionar se todo esforço que havia vivido até o momento era válido pra mim. Se para além de cumprir metas eu consegui sonhar e realizar sonhos. E, se eu fiz realmente foi minha vontade ou me anulei para atender demandas sociais, de grupos, e etc. 

A quarentena modificou muito minha vida, meu ritmo e minha forma de trabalhar e isso me trouxe muitas reflexões. Agora eu pergunto para você, leitor. Pessoas pretas tem crise de idade?

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