O que explica a solidão que estamos sentido?

Mesmo que sejamos a geração da globalização e internacionalização, o que tenho entendido é que cada vez mais estamos nos sentindo sozinhos. Temos todas as ferramentas de comunicação em nossas mãos para nos conectarmos com qualquer um a qualquer momento, temos vários grupos reais de amigos, a população mundial crescente, sempre mais e novas pessoas. Então o que explica a solidão que estamos sentido?

As redes sociais nos permitem conhecer todo mundo, ao mesmo tempo que mal conhecemos a nós mesmos. Frequentamos festas cheias com conhecidos e nos sentimos impertencentes aos ambientes, até mesmo os que são de fato nossos. Recebemos convites e ainda nos sentimos excluídos, recebemos presentes e mesmo assim o sentimento de desvalorização bate… 

Tem algo muito errado.

Não estou focando no contexto pandêmico em que estamos, porque esse é um movimento que vem acontecendo de antes. Também não é sobre números, por mais que o Brasil seja um dos países mais depressivos e ansiosos. Bauman e sua teoria da sociedade líquida se encaixam, mas não trago louros para ele.

É sobre o abstrato e indizível, sobre percepção e sentimentos. E essa conclusão eu tirei, depois de conversar com muitos amigos da minha faixa etária, entre 18 e 24 anos, e me relatarem que estão cansados dessa solidão, que em parte é fruto da ansiedade e da depressão, mas que é também um vazio interno. 

Quero ser empática com os que me cercam e estimular que outros façam o mesmo, porque essa solidão é um fenômeno que me preocupa cada vez mais. É um padrão ascendendo e estamos erroneamente aprendendo a normalizá-lo. 

CALL ME IF YOU GET LOST 

(Me ligue se você se perder)

Eu tenho um medo profundo de perder amigos. Tenho medo que tirem a própria vida, porque sei que pode ser um acontecimento não tão distante e sempre que algum me conta sobre ter pensado nisso, minhas pernas tremem e eu perco força. Porque aí sim, eu e quem mais perder, estaremos mais sozinhos.

No directors cut da Solange Knowles, ela tem uma passagem da musica BELTWAY onde projeta em nossa tela: Call me if you get lost (Me ligue se você se perder); trecho que dos 40 minutos de filme, mais me prendeu e me tocou.

Beltway - Solange - Video - Music Store
*Confira Beltway clicando na imagem

Precisamos ligar mais quando nos perdermos, seja geograficamente, seja ao perder o brilho.

Eu não tenho recebido ligações de amigos perdidos, mas eu tenho feito questão de ligar para eles ao primeiro sinal de perda, ouvir e explicar a eles que são importantes para mim, mesmo que eu não saiba demonstrar em uma totalidade. 

EU SOU PORQUE SOMOS

Ninguém se constroí sozinho. Somos a totalidade de tudo que já nos influenciou, positiva ou negativamente. As pessoas que me cercam me ensinam a ser afetuosa ou indiferente, valorizar ou desvalorizar determinadas coisas, entender ou não certos fatos. E essa é uma linearidade que foge de nossa vista e consequentemente, foge de nosso entendimento.

Uma pessoa que apenas cruza momentaneamente o nosso caminho pode nos transformar tanto quanto quem nos cria todos os dias ao nosso lado. E eu acredito que essa é a grande magia da vida, influenciar e ser influenciado até chegar na largada. Moldar e ser moldado. Trocas eternas de tudo, desde energias até saberes ou utensílios concretos.

Simplesmente por não nascermos sabendo viver.

Estamos sujeitos a erros, da mesma forma que estamos sujeitos a aprendizados e acertos.

E isso faz de cada um, peças pequenas mas extremamente importantes de um aparelho muito maior. Pode ser difícil confiar nesse aparelho quando se está (pejorativamente) na mira dele, quando ele faz muitas coisas serem mais difíceis. E é para essa dificuldade que existe a força coletiva. 

FORÇA COLETIVA

A funcionalidade dessa força quem me mostrou foi um amigo, Nelsinho, que chegou na minha vida a pouco tempo, mas que nesse curto tempo me mostrou como pode ser diferente, mais leve e interessante se agarrarmos ao coletivo. Quem tem, doa para quem precisa. Não precisa ser dinheiro, comida ou afins, por mais que eles façam diferença. Tão pouco conselhos, porque entramos na complexidade da psicologia ou até psiquiatria.

*Nada substitui terapias, psicólogos ou psiquiatras. Essas ajudas devem ser buscadas sim, e defendo que todos deveriam ter um profissional qualificado em escutar e orientar. Ninguém nasce sabendo viver.

Um abraço, olho no olho, aperto de mão fazem sim diferença. Uma ligação ou um convite, por mais simples que sejam, podem mudar uma narrativa.

Para quem busca brilho, um convite simplório pode ser o mais lindo que já recebeu, pode iluminar o dia ou toda semana, de repente mudar o mês.

CONCLUINDO

O lance no final é: precisamos nos permitir ser influenciados e também influenciar segundos e terceiros < de preferência positivamente, mas até a influência negativa é necessária em nossa construção; temos que cultivar redes de apoio e acreditar/apostar no coletivismo. E entender que nossas vulnerabilidades são chances de enxergar ou sentir o que não está certo e precisa mudar (mesmo que signifique dormir sem respostas e nao encontrar soluções para mudar).

Foi difícil escrever, por ser difícil de digerir, mas precisamos das primeiras tacadas (como a que dei ao escrever esse texto), para iluminarmos questões cotidianas que encostam em todos. Precisamos olhar ao redor, nos enxergar. Refletir para encontrar os 07 erros do jogo e entao buscar pela transformacao.

Sem esquecer que mudar hábitos pessoais, transformam microcosmos que influenciam grandes comunidades.

O trabalho de formiguinha também poliniza!

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